Rio Vouga
Se a Ria de Aveiro é o coração da região, o Vouga é a sua artéria principal. Nasce na serra, corre 148 quilómetros, e leva consigo a vida de quem habita nas suas margens.
Estamos na margem do Vouga, num fim de tarde de verão. O sol já não queima, mas ainda aquece a pedra onde nos sentamos. O rio corre – não com pressa, mas com um rumor constante, como quem fala sozinho há séculos.
Nasce na Serra da Lapa, a 930 metros. Lá em cima, é apenas um fio de água – o Vouguinha, chamam-lhe os pastores. Depois desce, ganha corpo, junta-se ao Caima, ao Sul, ao Águeda, e vai-se fazendo rio. São 148 quilómetros até à Ria. A meio, passa por Sever, onde os barcos subiam e desciam com sal e cereal. O Poço de S. Tiago era um porto – hoje, só a memória.
Dizem os antigos que os Mouros tinham uma entrada secreta no Castêlo que dava até à água. E que uma moura se penteava na margem, e quando alguém lhe perguntava onde ia, respondia: "Vou ver-me ao Vouga." O rio guarda essas histórias. Guarda também vestígios de quem ali viveu há 150 mil anos.
Em Sever do Vouga, o rio era navegável até Aveiro. O Poço de S. Tiago servia de porto para dezenas de mercantéis. Moinhos de água moíam o cereal ao longo do curso. As lavadeiras iam de joelhos sobre as pedras, esfregando a roupa com sabão e batendo-a contra a corrente. O moliço era apanhado nos braços mais calmos, para fertilizar os campos. Os pescadores lançavam as redes à espera do barbo, da boga, da enguia.
O Vouga emprestou o nome a muitas terras. Pessegueiro, Sernada, Sever, Macinhata, Castanheira, Valongo, Arrancada, Trofa, Lamas. Cada uma cresceu à sua beira, bebeu da sua água, viveu do seu movimento. O rio muda de cara ao longo do percurso. Lá em cima, é um rio de planalto. Depois, ganha força, cria rápidos, ilhas, praias, poços. Até que, já cansado, se espalha na Ria e perde o nome. Mas a memória fica. A memória fica em cada terra que o rio tocou.
Observação do Lobo
O Vouga não é só água. É memória. É o rumor das rodas dos moinhos, o bater da roupa nas pedras, o rumor dos barcos a descerem para Aveiro. É a lenda que se conta à lareira, o nome que se repete em cada terra que banha. Se há rio que merece ser ouvido, é este. Senta-te na margem. Cala-te. Escuta.
Leva estas palavras contigo, para quem quiser seguir o mesmo cheiro:
Para partilha sensorial: Copia as que sentires mais tuas.
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