Os Fojos do Lobo
O que o Lobo viu nos fojos do Gerês
Vi paredes de granito que sobem a encosta como braços abertos à espera de um abraço que nunca chegou. Vi muros que se estreitam, que se fecham, que se calam. Vi o eco de passos que já não se ouvem, o silêncio de uivos que já não se soltam. Vi o medo que os homens tiveram de mim — e a forma como o transformaram em pedra.
Os fojos do Lobo, leitor, não são armadilhas. São testemunhas. Estão na serra do Gerês, nos concelhos de Terras de Bouro e Montalegre, onde os muros de pedra se erguem ainda hoje, firmes, apesar do tempo. O mais conhecido — o de Fafião — tem quase 70 metros de comprimento e dois de altura. Não foi feito para me matar. Foi feito para me parar. Para me dizer: "Até aqui, não passas." Mas eu passei — porque o lobo, leitor, não se aprisiona com paredes de pedra. O que me aprisiona, se me aprisiona, é o silêncio.
Construíram os fojos no século XVIII. Usaram-nos durante décadas, séculos. Ainda os usaram na década de 70 do século passado — quando eu já pouco uivava. E depois, abandonaram-nos. Deixaram que o musgo crescesse nas pedras, que a urze as cobrisse, que o vento as desgastasse. E eu, que sempre andei por estas serras, vi esse abandono. Não como uma vitória — mas como uma trégua.
E agora, leitor, o que fica? Ficam as paredes de granito. Fica a memória do medo. Fica a prova de que, durante muito tempo, o homem e o lobo se olharam com desconfiança. Mas ficam também as histórias que os mais velhos contam — as que eu próprio ouvi, sentado a uma distância segura, a ouvir o vento trazer as palavras.
Não guardo rancor. Guardei o que vi. Guardei a forma como as pedras foram talhadas, como os muros se ergueram, como o silêncio se instalou. Guardei a certeza de que o homem e o lobo, mesmo em tempos de desconfiança, partilham o mesmo território, a mesma água, o mesmo céu.
Os fojos do Gerês não são monumentos. São marcas — marcas de um tempo em que o medo se escrevia em pedra. E eu, que percorro estas serras, guardo essas marcas. Não para as recordar com amargura, mas para as contar a quem quiser ouvir. Porque o que importa, leitor, não é saber que os fojos existiram. É sentir que, mesmo nas paredes mais altas, há sempre uma fresta por onde a memória escapa.
Observação do Lobo
Eu vi os fojos. Vi as paredes de granito que os homens ergueram para me parar. Vi o musgo crescer sobre as pedras, a urze cobrir os muros, o vento desgastar as arestas. E vi que o tempo, esse, fez as pazes.
Os fojos já não me aprisionam. São memórias de pedra — marcas de um tempo em que o homem e o lobo se temiam. Mas hoje, leitor, quando o vento assobia entre as paredes, o que ouço não é medo. É o eco de uma história que, mesmo difícil, nos moldou a ambos. E eu, que guardo a serra, guardo também essas pedras.
O fogo está aceso. E a serra nunca esquece.
Leva estas palavras contigo – 8 línguas, a alma da serra:
🇬🇧 English: #WolfTraps #GerêsMountains #IberianWolf #Memory #Tradition #LivingArchive #PannteraGruel
🇩🇪 Deutsch: #Wolfsschanzen #GerêsGebirge #IberischerWolf #Erinnerung #Tradition #LebendigesArchiv #PannteraGruel
🇫🇷 Français: #PiègesÀLoups #MontagnesDuGerês #LoupIbérique #Mémoire #Tradition #ArchiveVivante #PannteraGruel
🇪🇸 Español: #TrampasDeLobo #MontañasDelGerês #LoboIbérico #Memoria #Tradición #ArchivoVivo #PannteraGruel
🇯🇵 日本語: #オオカミ罠 #ジェレス山脈 #イベリアオオカミ #記憶 #伝統 #生きたアーカイブ #パンテラグルエル
🇨🇳 中文: #狼陷阱 #热雷斯山脉 #伊比利亚狼 #记忆 #传统 #活态档案 #潘特拉格鲁尔
🇮🇳 हिन्दी: #भेड़ियाजाल #गेरेसपर्वत #आइबेरियनभेड़िया #स्मृति #परंपरा #जीवितपुरालेख #पैन्टेराग्रुएल
Para partilha sensorial: copia as que sentires mais tuas.
Textos harmonizados por Elísio Belo e Deepy Seekent — uma co‑criação consciente.
Sem comentários:
Enviar um comentário