A Esposa do Pastor da Serra
“Antes do pastor sair com o rebanho, ela já estava de pé — a atiçar o fogo, a engrossar as papas, a aquecer a roupa, a segurar a casa inteira nas mãos.”
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O Lobo viu
O Trabalho Invisível
Antes de o pastor dar a primeira colherada nas papas de miga e sair com o rebanho ao amanhecer, a jornada da sua esposa já ia a meio. Travada na escuridão, no silêncio da casa fria, na solidão do lume que ainda não ardeu.
Ela é a primeira a levantar-se. Muito antes do romper da alvorada. Vai direita à lareira de chão — o coração da casa — e sopra as cinzas, atiça os restos de lenha da véspera. O fogo, que é a única fonte de calor e luz, renasce. A água aquece no pote de ferro. Sem água quente, não há cozinha, não há rosto lavado, não há vasilhas higienizadas para o leite que chegará mais tarde.
É ela quem bate a farinha de centeio ou milho na água a ferver com as couves picadas — uma tarefa que exige força, que exige pulso, que exige presença. As papas engrossam, e o pastor come antes de sair. Mas ela não come com ele. Ela trabalha enquanto ele come, e continua a trabalhar depois de ele sair.
Prepara o alforge: uma fatia grossa de pão de centeio endurecido, um pedaço de queijo curado ou um naco de toucinho da salgadeira, embrulhados num pano de linho rústico. Não há palavras, não há despedidas. Há o gesto de quem sabe que o monte não espera, e que o homem que sai precisa de ter o que comer ao fim do dia.
Depois, vai ao palheiro. Alimenta as galinhas, os coelhos, o porco. Ajuda na ordenha, se o rebanho ainda está no curral anexo. Prepara os tarros, verifica o leite que será o sustento e a matéria-prima para o queijo da Beira Alta.
E, antes de tudo, verifica a roupa do pastor. A croça, a capa de juncos, o capote de burel — tudo tem de estar seco do dia anterior. Dispõe os agasalhos e as meias de lã de ovelha cardada à beira da lareira, para que ele os vista ainda quentes, protegido da humidade cortante da serra.
Ela não sai para o monte. Ela fica. E o que faz, ninguém vê. Mas sem ela, o pastor não sai. Sem ela, o fogo não arde. Sem ela, as papas não engrossam. Sem ela, a roupa não aquece. Sem ela, a casa não resiste.
Guarda esta carta, amigo. E quando pensares no pastor da serra, lembra-te que, antes dele sair, houve uma mulher que já estava de pé — e que, sem ela, ele não teria chegado ao fim do dia.
Com um abraço que cheira a lareira e a lã cardada,
O Lobo que também sabe que o silêncio da madrugada tem nome de mulher.
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