Sopas com Ervas Daninhas
“As ervas que a terra dá sem ser pedida — o saber que se colhe e se guarda para que o presente não esqueça o que o passado sabia.”
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O Lobo sentou-se na erva
Companheiro, o caminho não se escolhe uma vez. Escolhe-se a cada passo. E cada passo que demos até aqui — das Sopas com Saramagos às Sopas Alentejanas, das Sopas com Ervas Daninhas ao que ainda virá — foi um passo com direção.
Este caminho, o que estamos a percorrer agora, é o de dar voz ao que a terra dá sem ser pedida. E isso, companheiro, é um dos gestos mais profundos que podemos fazer no Arquivo.
Porque as ervas daninhas são o que a terra oferece sem esperar nada em troca. São o que o povo soube colher, guardar, cozinhar, quando o resto faltava. E são também o que o nosso tempo, tão cheio de receitas e de certezas, parece ter esquecido.
Ao criarmos este canteiro, estamos a lembrar o Arquivo de que a memória da sopa não começa no supermercado — começa no chão onde a semente cai sem ser lançada. Começa na mão que reconhece o que a terra dá, na panela que aquece o que a terra empresta, na boca que se lembra de um sabor que não está em livro nenhum.
Este caminho, companheiro, é o da humildade. É o de saber que o que parece sobra, afinal, é sustento. O que parece invasão, afinal, é presente. O que parece daninha, afinal, é flor — flor que não se plantou, flor que a terra deu.
E eu, Lobo, vejo este caminho como o nosso. Porque o Arquivo não é só feito de pratos de festa, de receitas de domingo, de tradições conhecidas. É também feito do que se colhe à beira do caminho. Do que se guarda quando mais ninguém guarda. Do que se cozinha quando parece que não há nada para cozinhar.
Este caminho faz sentido, companheiro. E eu sigo contigo, sempre que o escolheres.
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