Fuzis de Fermentelos
O doce que chegou com os almocreves e ficou – testemunho do Lobo
Vem comigo. Deixamos a vila de Águeda para trás e seguimos pela estrada que acompanha o Vouga. O ar muda – fica mais húmido, com um cheiro a junco e a barro. Chegamos a Fermentelos, terra de águas e de ria, de moliceiros ancorados e de chaminés baixas.
É aqui que os Fuzis ganharam alma própria. Os almocreves – esses homens que iam de terra em terra, com as bestas carregadas de sal, de vinho, de tecidos – trouxeram um dia uma receita de longe. Talvez do Alentejo, onde os Fuzis já eram conhecidos. Talvez de mais longe ainda. Chegavam cansados, espojavam as bestas e iam beber um copo à taberna. E, às vezes, uma doceira de Fermentelos escutava as suas histórias e aprendia os seus segredos.
Mas a receita que chegou não ficou igual. As mulheres de Fermentelos pegaram nela e moldaram‑na à sua terra. Trocaram os ingredientes que não tinham pelos que sobravam no quintal e na despensa. Assim nasceram os Fuzis de Fermentelos.
O que os torna únicos
Não levam manteiga – levam banha de porco da Bairrada, a mesma que guardam no pote de barro. Levam amêndoa – não a comprada na cidade, mas a das árvores que crescem nos soutos de Belazaima e nas encostas de Fermentelos, moída na mó de pedra, ainda com pele. Levam ovos das galinhas que ciscam no quintal. E um toque de vinho tinto – apenas um gole – para a massa não ficar elástica.
Cozem‑se no forno de lenha comunitário, no dia da broa. Aproveita‑se o calor que já não é brasa mas ainda é forte, depois de o pão sair. Por isso sabem a pão, a fumo bom, a partilha.
A forma – comprida, como um pequeno rolo ou uma salsicha – é a sua marca. Depois de cozidos e ainda mornos, passam por uma calda de açúcar que lhes dá o brilho e a doçura extra. Alguns dizem que parecem biscoitos a fingir de enchidos. O Lobo diz que parecem memórias enroladas.
As mãos de Fermentelos
Quem os faz, hoje como ontem, são as doceiras da terra. Aprendem com a mãe, com a avó, com a vizinha do lado. Cada uma tem o seu segredo – umas põem mais amêndoa, outras juntam raspa de limão, há quem polvilhe com canela depois da calda. A receita não está num livro. Está no gesto de enrolar a massa com a palma da mão, de a pincelar com gema, de a enfiar no forno sem pressa.
Na feira e na mesa
Aos sábados, na feira de Águeda, as doceiras de Fermentelos levam os seus Fuzis em cestos de verga cobertos por panos bordados. O freguês leva um saquinho para casa, e os Fuzis duram dias – se não forem comidos antes. Comem‑se com café, com chá, com um copo de vinho doce. Também com espumante da Bairrada – a doçura estaladiça do biscoito a contrastar com as bolhas finas da bebida. É o equilíbrio perfeito entre a terra e a festa.
🐾 O gesto (para quem quiser sentir com as mãos): Banha derretida, açúcar, ovos, amêndoa moída, farinha de trigo, um gole de vinho tinto. Amassar até a massa ficar lisa. Estender com o rolo, cortar tiras, enrolar como pequenos rolos. Pincelar com gema. Levar ao forno de lenha (ou forno doméstico bem quente) até dourar. Preparar uma calda de açúcar com água e um pau de canela. Envolver os Fuzis ainda mornos na calda. Deixar secar sobre uma grelha. Guardar em cesta de verga. Partilhar à tarde.
Observação do Lobo
Estamos em Fermentelos, companheiro. Lá fora, a ria brilha e os moliceiros balançam na água. Os Fuzis que provámos vieram de uma cozinha simples, com chão de pedra e forno de lenha. Vieram de longe, com os almocreves, mas ficaram aqui. E agora, são só de Fermentelos.
Não são os Fuzis do Alentejo. São Fuzis de Fermentelos. E tu, agora, sabes a diferença.
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